Tratamento Cirúrgico da Epilepsia

Se você já usou pelo menos dois remédios e mesmo assim continua tendo crises, é possível que a cirurgia possa ajudar.

  • Estimulação do Nervo Vago (VNS)
  • Cirurgia Ressectiva
  • Calosotomia
  • Neuromodulação Cerebral

Entenda o VNS: uma técnica de neuromodulação que atua sobre as crises sem nenhuma intervenção dentro do crânio — indicada para adultos e crianças.

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Você reconhece esta situação?

Os medicamentos foram trocados, combinados, aumentados — e as crises continuam. Cada nova crise traz o medo da queda, do machucado, da crise em público. A escola liga, o trabalho fica em risco, dirigir está fora de questão. A família vive em alerta permanente, e a sensação é de que a vida inteira se organiza em torno da próxima crise. Se esse é o seu caso — ou o do seu filho —, há uma informação que muda tudo: quando dois medicamentos adequados, em doses corretas, não controlam as crises, a chance de um terceiro remédio resolver é pequena. É o que se chama de epilepsia farmacorresistente, e ela atinge cerca de um em cada três pacientes com epilepsia. A partir desse ponto, as diretrizes internacionais são claras: o paciente deve ser avaliado por um centro especializado em cirurgia de epilepsia.

O que é o tratamento cirúrgico da epilepsia?

"Cirurgia de epilepsia" não é uma única operação — é um conjunto de técnicas, escolhidas conforme a origem e o comportamento das crises de cada paciente:

Cirurgia ressectiva

Quando as crises nascem de uma região bem localizada e segura de operar, a remoção desse foco pode oferecer a maior chance de controle completo das crises. É a primeira opção a ser investigada.

Calosotomia

Indicada em situações específicas, principalmente para reduzir as crises com quedas súbitas (crises atônicas), das mais perigosas do ponto de vista de traumatismos.

Neuromodulação

Quando não é possível (ou não é suficiente) remover um foco, entra a estimulação elétrica: o VNS (estimulação do nervo vago) e, em casos selecionados, a estimulação cerebral profunda. São técnicas ajustáveis e reversíveis, que reduzem a frequência e a intensidade das crises.

Esta página aprofunda a técnica de neuromodulação mais utilizada no mundo para epilepsia: o VNS. O VNS é um sistema composto por um pequeno gerador implantado sob a pele do tórax, conectado a um eletrodo posicionado ao redor do nervo vago, no pescoço. O ponto que mais surpreende as famílias: o VNS não envolve abrir o crânio nem tocar no cérebro — todo o procedimento é realizado no pescoço e no tórax. É utilizado no mundo há cerca de três décadas, com mais de 100 mil pacientes tratados.

Sinais de que pode ser hora de uma avaliação cirúrgica

  • Crises que persistem apesar do uso correto de dois ou mais medicamentos adequados
  • Diagnóstico (ou suspeita) de epilepsia farmacorresistente ou refratária
  • Crises com quedas, traumatismos ou idas frequentes à emergência
  • Efeitos colaterais limitantes da medicação: sonolência, lentidão, alterações de memória ou humor
  • Impacto importante na escola, no trabalho ou na autonomia
  • Paciente já avaliado como "não candidato" à cirurgia ressectiva
  • Crianças com síndromes epilépticas graves (como Lennox-Gastaut) e crises de difícil controle
  • Anos de tratamento clínico sem que uma avaliação cirúrgica formal tenha sido feita

Avaliação cirúrgica não significa decisão por cirurgia. Significa colocar o caso diante de todas as opções existentes — inclusive ajustes clínicos que talvez ainda não tenham sido tentados.

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Como funciona o tratamento com VNS, passo a passo

  1. 01

    Avaliação especializada

    Neurologista/epileptologista e neurocirurgião revisam o diagnóstico, o vídeo-EEG, os exames de imagem e o histórico medicamentoso para definir a modalidade cirúrgica com melhor resultado.

  2. 02

    Implante

    Em cirurgia de curta duração, sob anestesia geral, o eletrodo é posicionado no nervo vago esquerdo e o gerador sob a pele do tórax. Não há qualquer procedimento intracraniano.

  3. 03

    Ativação e programação

    Dias após a cirurgia, o dispositivo é ligado e programado de forma gradual, ajustando intensidade e ciclos de estimulação.

  4. 04

    O recurso do ímã

    O paciente ou familiar pode passar um ímã sobre o gerador ao perceber o início de uma crise, disparando estimulação extra que pode abortar ou atenuar a crise.

  5. 05

    Detecção automática

    Os modelos atuais detectam a aceleração dos batimentos cardíacos associada às crises e disparam estimulação extra automaticamente — inclusive durante o sono.

  6. 06

    Acompanhamento de longo prazo

    A resposta ao VNS é progressiva: tende a melhorar ao longo de meses e a se consolidar com os anos de uso, junto ao ajuste fino da medicação.

O VNS cura a epilepsia?

Não. O objetivo do VNS é reduzir a frequência, a intensidade e a duração das crises, além de encurtar a recuperação após cada crise. A resposta tende a aumentar com o tempo de uso, mas a expectativa correta é de controle, não de cura.

É verdade que não precisa mexer no cérebro?

Sim. O implante do VNS acontece inteiramente fora do crânio: uma incisão discreta no pescoço, para o eletrodo, e outra no tórax, para o gerador.

Meu filho pode fazer? Existe idade mínima?

O VNS possui aprovação e larga experiência em crianças, incluindo em idade pré-escolar em casos selecionados. A definição depende da avaliação conjunta com o neuropediatra/epileptologista.

Quando começam a aparecer os resultados?

Diferente de uma cirurgia ressectiva, o efeito do VNS é gradual: a resposta costuma se instalar ao longo dos primeiros meses e continuar melhorando com os anos e o refinamento da programação.

Quais os efeitos colaterais?

Os mais comuns são rouquidão ou alteração leve da voz, formigamento na garganta e tosse — geralmente discretos e ajustáveis pela programação. O VNS não causa sedação, lentidão cognitiva ou sobrecarga do fígado.

Vou poder parar os remédios?

O VNS trabalha em conjunto com a medicação, não no lugar dela. Em muitos casos, o melhor controle das crises permite simplificar o esquema ou reduzir doses ao longo do tempo.

Como funciona o ímã? Qualquer pessoa da família pode usar?

Sim. Pais, cônjuges, professores e cuidadores podem ser orientados a passar o ímã sobre o gerador ao primeiro sinal de crise — gesto simples e seguro.

A bateria acaba? Como é a troca?

O gerador tem vida útil de vários anos. A troca, quando necessária, é um procedimento simples no tórax, sem tocar no eletrodo do pescoço.

Poderei fazer ressonância magnética?

Os sistemas atuais de VNS são condicionalmente compatíveis com ressonância, seguindo protocolos específicos. O paciente recebe cartão de identificação do dispositivo.

O plano de saúde cobre? E o SUS?

O tratamento cirúrgico da epilepsia farmacorresistente, incluindo o VNS, possui previsão de cobertura para indicações estabelecidas, com centros habilitados no sistema público.

E se o VNS não funcionar?

O sistema é ajustável e reversível: os parâmetros podem ser reprogramados diversas vezes e, se necessário, o dispositivo pode ser desligado. O paciente segue elegível a outras estratégias.

Já me disseram que "não sou candidato à cirurgia". Essa página é para mim?

Provavelmente sim. Quando alguém ouve que "não é candidato", em geral a frase se refere apenas à cirurgia ressectiva. A neuromodulação, e o VNS em particular, existe justamente para esses pacientes.

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Quem conduz o tratamento

Dr. Bruno Fernandes

Dr. Bruno Fernandes — Neurocirurgião

CRM-SE 3918 · RQE 3496

Especialista em Neurocirurgia Funcional e Estereotáxica, com atuação em neuromodulação (VNS, estimulação cerebral profunda e estimulação medular), cirurgia de epilepsia e radiocirurgia. Professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e Diretor do Departamento de Radiocirurgia da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN).

Cada ano de crises não controladas tem um custo. A avaliação não tem compromisso.

Se dois medicamentos já falharam, o próximo passo recomendado pelas diretrizes internacionais não é o terceiro remédio — é a avaliação em centro especializado. Ela não obriga a nenhuma cirurgia: apenas coloca, pela primeira vez, todas as opções sobre a mesa.

As informações desta página têm caráter educativo e não substituem a consulta médica. A indicação de qualquer tratamento depende de avaliação individualizada. Resultados variam de paciente para paciente.